CORRUPTOS DO BRASIL, UNI-VOS!

Neste grave momento, em que forças obscuras de nosso inimigo figadal, a honestidade, representadas por uma imprensa tão malditamente livre, juízes, procuradores e policiais federais – fedelhos mal saídos dos cueiros – têm a ousadia de brandir a verdade e o pesado braço da lei contra nós, temos que nos posicionar. O que se configura é uma sórdida ameaça ao direito que suadamente adquirimos, ao longo de cinco séculos,  de rapinar o país.

Diante de tal descalabro, a SOCU – Sociedade dos Corruptos Unidos – vem, ao pé do ouvido de cada um de seus membros de todos os níveis hierárquicos – ratazanas, ratos e camundongos da área pública e da privada, incluindo nossos colegas profissionais liberais, traficantes e cidadãos comuns que tentam legitimamente se arrumar com trambiques de toda ordem –  alertar para a necessidade de uma reflexão profunda e do estabelecimento de uma nova estratégia, capaz de preservar nossas históricas conquistas.

A REFLEXÃO

Nunca antes na história deste país foi colocado em tão imenso risco o sagrado acesso nosso, de nossos filhos, netos, bisnetos e tataranetos às delícias do caviar, ao conforto dos jatinhos, à discrição de nossas contas nos paraísos fiscais, às inocentes e deliciosas experiências gourmet em Paris, aos saborosos vinhos das melhores caves, aos presentes desinteressados de empreiteiros e outras singelas benesses,  bem como ao nosso inalienável direito de nos perpetuarmos no poder e no topo da pirâmide social.

Se não nos posicionarmos estrategicamente, em breve quererão – horror dos horrores – que paguemos nossos privilégios do próprio bolso! E mais: retirar o direito de praticarmos chicanas, de fraudar o nosso Imposto de Renda de cada dia, de vender atestados e sentenças, de fazer cartéis, de fraudar licitações, de ter carros oficiais de luxo, passagens aéreas, diárias em dólar, ajudas de custo diversas, auxílio moradia, planos de saúde ilimitados nos centros de referência do país, acesso privilegiado aos cofres do BNDES e até mesmo nossas aposentadorias milionárias e justamente precoces (afinal, para garantir tudo isto, muito temos que trabalhar por nós e pelos nossos – além de ter que o tempo todo fingir que trabalhamos pelo povo ou que nossas empresas visam o bem da comunidade. Estressante…).

Mas de quem é a culpa por este tenebroso quadro? DE NÓS MESMOS! Fomos com sede demais ao pote. Quase matamos a galinha dos ovos de ouro, por quase exaurir os recursos desta nação que ainda tem muito a nos dar. Atacamos com muita sofreguidão o paiol de milho, sem medo e sem pudor, acreditando demais na impunidade (quem não acreditaria?) e, com isto, quase deixando todas as espigas de milho somente no sabuco. O efeito colateral é que faltou milho para o grosso da população e, assim, os pobres e remediados (arrrghh!) se arvoraram no direito de questionar o desemprego e inflação crescentes, a falta de escolas e de um sistema de saúde decentes, o custo dos transportes, a precariedade das estradas e até a desigualdade social! Quanta ousadia! Mas, insistimos, por NOSSA CULPA e falta de uma visão estratégica. Se a tivéssemos, não teríamos, por exemplo, privatizado a telefonia. Assim, os celulares estariam restritos a um pequeno número de nós mesmos, pelo custo inacessível, e não correríamos o risco de sermos gravados no justo ofício de arquitetar maracutaias.

NOVA ESTRATÉGIA PROPOSTA

Surpreendamos o inimigo. Sejamos, durante 20 anos (somente isto!), mais honestos que eles mesmos, por mais que isto nos doa. Deixemos adormecidos, neste curto (?) período, nossos interesses pessoais e trabalhemos com afinco para que a galinha dos ovos de ouro que os que não frequentam o circuito Londres, Paris, New York, Ibiza e Dubai chamam de “nossa pátria” se recupere e engorde o mais possível. Deixemos que os pobres e os remediados (arrrghh!) tenham o gostinho de melhorar (mesmo) de vida, ainda que isto signifique ter que dolorosamente dar a eles parte do nosso bolo. O consolo é que jamais alcançarão nosso status. Afinal, não têm experiência nem tradição histórica de serem “usufrutuários da riqueza”, como nós.

Assim, o país melhora, os pobres e os remediados (arrrghh!)  podem ter acesso a um sistema de educação e de saúde melhores (sem se atreverem, é claro, a pleitear acesso aos nossos Incor e Sírio Libanês). Melhor qualificados, podem virar pequenos e médios empresários ou ter empregos melhores. Associando a isto uma política drástica de redução de custos do Estado e  investimento público só nas coisas estratégicas, a economia volta a crescer e a galinha engorda. E aí?! Olha nós de volta para assaltar novamente o paiol, cheio de espigas gordas e novinhas!

Um alerta necessário: pode ser que, ao longo destas duas décadas, alguns de nossos companheiros fraquejem e caiam na tentação de se sentirem confortáveis com a honradez e seus (supostos) benefícios: a respeitabilidade, a credibilidade, o direito de dormir sem sobressaltos (sonhando, por exemplo, com a PF à porta), de ir a um restaurante e não ser dali corrido a gritos de “ladrão!” Podem também se encantar com a possibilidade de olhar seus filhos nos olhos e dizer: “Não temos tudo o que gostaríamos, mas tudo o que temos é fruto de nossa verdadeira competência e de trabalho honesto.” Besteira! Que Deus (ou o Diabo) não nos deixe cair em tamanha tentação. Vade retro! Entendam: honestidade (eta palavrinha de mau gosto…) será, para nós, apenas uma estratégia de curta duração! O negócio sempre foi (e voltará a ser, se agirmos inteligentemente) extrair o máximo, no mínimo de tempo. Vela de iate anda muito cara e temos que manter o padrão.

Mas, para que o objetivo estratégico de riqueza crescente, rápida e a qualquer custo volte a ser realidade para nós e nossos descendentes, o sacrifício de ser honesto por estes 20 anos é vital, por mais que isto pareça uma eternidade. Por isto, fica a nossa exortação:

CORRUPTOS DO BRASIL, UNI-VOS NA ESTRATÉGIA DE SER HONESTO POR TEMPO LIMITADO. 20 ANOS. NEM UM DIA A MAIS! SEM ALUCINAÇÕES MORAIS E ESCRÚPULOS TARDIOS.

(Armani, Louis Vitton, Veuve Clicquot e os bobos que acreditarem que esta postura será para sempre agradecerão).

PS: Este documento se autodestruirá em 20 anos.

2 Comentários
2 Comentários
  1. Lúcio, é deprimente pensar em tudo isso. Às vezes, me sinto omissa, às vezes culpada (não por ter votado nos que aí estão) por não ser mais envolvida politicamente, a ponto de ser engajada em algum grupo de protesto. Ao mesmo tempo, me sinto usurpada quando tiram grande parte do meu salário, que me ajudaria a conquistar merecidamente uma qualidade de vida cada vez melhor. Os absurdos que acontecem neste país são surreais, que em outras épocas, se contassem, ninguém acreditaria, antes, ririam achando ser piada. Deprimente, desalentador para quem vive batalhando para um país melhor, principalmente a maioria dos professores. Digo a maioria porque estou na academia, onde os egos falam mais alto que qualquer possibilidade de acessibilidade, inclusão e manutenção de seus alunos. Um grande abraço.

    • É isto, Marisa: quem tem o poder de fazer o Brasil melhor quer apenas melhorar a própria vida, em detrimento da população que luta, trabalha e paga impostos cada vez maiores.

      Mas não desanime: este sistema (tão velho quanto o país) está caindo de podre. Os corruptos atuais fizeram um favor, ao escancarar o surrealismo da coisa, como você tão bem colocou. Continuemos com a boca no trombone, cada um da forma como pode. Estes sairão, mas não podemos dar sossego também para os próximos. Força!
      Grande abraço.

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