Educação, Limites e Sociedade: lá como cá, coincidências há (Ô Pá!)

Em meio ao muito joio que se recebe pela Internet, há também muito trigo. Recebi de um amigo (que recebeu de um amigo, que, por sua vez, recebeu de um amigo, que, a seu turno, recebeu de um amigo…) o texto abaixo, produzido em terras d’além mar. Por sua propriedade (quase) universal e pela conexão com os tempos atuais, permiti-me publicá-lo neste espaço, que tenho reservado, em geral, para minhas próprias reflexões. Confira se as semelhanças são meras coincidências.

A escola que temos não exige a muitos jovens qualquer aproveitamento útil ou qualquer respeito da disciplina. Passa o tempo a pôr-lhes pó de talco e a mudar-lhes as fraldas até aos 17 anos. Entretanto mostra-lhes com toda a solicitude que eles não precisam de aprender nada, enquanto a televisão e outros entretenimentos tratam de submetê-los a um processo contínuo de imbecilização.

Se, na adolescência, se habituam a drogar-se, a roubar, a agredir ou a cometer outros crimes, o sistema trata-os com a benignidade que a brandura dos nossos costumes considera adequadas à sua idade e lava-lhes ternurentamente o rabinho com água de colónia. Ficam cientes de que podem fazer tudo o que lhes der na real gana na mais gloriosa das impunidades.

Não são enquadrados por autoridade de nenhuma espécie na família, nem na escola, nem na sociedade, e assim atingem a maioridade. Deixou de haver serviço militar obrigatório, o que também concorre para quecheguem à idade adulta sem qualquer espécie de aprendizagem disciplinada ou de noção cívica. Vão para a universidade mal sabendo ler e escrever e muitas vezes sem sequer conhecerem as quatro operações. Saem dela sem proveito palpável.

Entretanto, habituam-se a passar a noite em discotecas e noutros proficientes locais de aquisição interdisciplinar do conhecimento, até às cinco ou seis da manhã. Como não aprenderam nada digno desse nome e não têm referências identitárias, nem capacidade de elaboração intelectual, nem competência profissional, a sua contribuição visível para o progresso do país consiste no suculento gáudio de colocarem Portugal no fim de todas as tabelas. Capricham em mostrar que o “bom selvagem” afinal existe e é português. A sua capacidade mais desenvolvida orienta-se para coisas como o Rock in Rio ou o futebol. Estas são as modalidades de participação colectiva ao seu alcance e não requerem grande esforço (do qual, aliás, estão dispensados com proficiência desde a instrução primária).

Contam com o extremoso apoio dos pais, absolutamente incapazes de se co-responsabilizarem por uma educação decente, mas sempre prontos a gritar aqui-d’el-rei! contra a escola, o Estado, as empresas, o gato do vizinho, seja o que for, em nome dos intangíveis rebentos.

Mas o futuro é risonho e é por tudo o que antecede que podemos compreender o insubstituível papel de duas figuras como José Mourinho e Luiz Felipe Scolari. Mourinho tem uma imagem de autoridade friamente exercida, de disciplina, de rigor, de exigência, de experiência, de racionalidade, de sentido do risco. Este conjunto de atributos faz ganhar jogos de futebol e forma um bloco duro e cristalino a enredomar a figura do treinador do Chelsea e o seu perfil de*condottiere* implacável, rápido e vitorioso. Aos portugueses não interessa a dureza do seu trabalho, mas o facto de “ser uma máquina” capaz de apostar e ganhar, como se jogasse à roleta russa.

Scolari tem uma imagem de autoridade, mas temperada pela emoção, de eficácia, mas temperada pelo nacional-porreirismo, de experiência, mas temperada pela capacidade de improviso, de exigência, mas temperada pela compreensão afável, de sentido do risco, mas temperado por um realismo muito terra-a-terra. É uma espécie de tio, de parente próximo que veio do Brasil e nos trata bem nas suas rábulas familiares, embora saiba o que quer nos seus objectivos profissionais.

Ora, depois de uns séculos de vida ligada à terra e de mais uns séculos de vida ligada ao mar, chegou a fase de as novas gerações portuguesas viverem ligadas ao ar, não por via da aviação, claro está, mas porque é no ar mais poluído que trazem e utilizam a cabeça e é dele que colhem a identidade, a comprazer-se entre a irresponsabilidade e o espectáculo. E por isso mesmo, Mourinho e Scolari são os novos heróis emblemáticos da nacionalidade, os condutores de homens que arrostam com os grandes e terríficos perigos e praticam ou organizam as grandes façanhas do peito ilustre lusitano. São eles quem faz aquilo que se gosta de ver feito, desde que não se tenha de fazê-lo pessoalmente porque dá muito trabalho. Pensam pelo país, resolvem pelo país, actuam pelo país, ganham pelo país. Daí as explosões de regozijo, as multidões em delírio, as vivências mais profundas, insubordinadas e estridentes, as caras lambuzadas de tinta verde e vermelha dos jovens portugueses. Afinal foi só para o Carnaval que a escola os preparou. Mas não para o dia seguinte.

A cena brasileira, com seu quadro de desorganização social, hedonismo e consumismo desenfreados, de “subversão” da autoridade no ambiente familiar e escolar, da indisciplina crônica e da violência na escola, do desrespeito ao outro e à autoridade, desembocando em crescente “desobediência civil” e corrupção “septicêmica”, está a exigir reflexão e ação urgentes.

Mas lamento informar que a educação NÃO é a solução (como trombeteiam muitos). Pelo menos não esta educação (em letras minúsculas), voltada para as firulas acadêmicas e muito de cultura inútil, meramente “vestibulística”. Esta que faz com que menos de 5% dos alunos cheguem ao final da 4a. série tendo efetivamente aprendido a ler e escrever. Esta que leva as pessoas a pensarem que um diploma comprado a prestação ou através da “cola” vai resolver o problema. Esta que deu diplomas de graduação e pós-graduação aos maiores larápios do país (ou Lalau, Roberto Jeferson e assemelhados são analfabetos?).

O que poderá nos livrar da mediocrização desenfreada e até mesmo do retorno à barbárie (cujos sinais já são evidentes, não apenas pelo vandalismo das periferias, mas especialmente pela criminalidade que se dissemina pela classe média e pelos altos escalões) é uma EDUCAÇÃO com todas as letras maiúsculas. Uma EDUCAÇÃO familiar, em primeiro lugar, baseada em limites e valores, e uma EDUCAÇÃO acadêmica que, além de prover e premiar a competência técnica, se preocupe em FORMAR cidadãos. Mas tudo isto sem cair no erro de apenas ressuscitar um passado de autoritarismo e intimidação, para conseguir resultados.

A questão preocupa a muitos países. Para onde se olha, vê-se que está a ser gestado um quadro cada vez mais negro. Recomendo a leitura do texto “Educação (escolar?) para uma juventude em crise”, que retrata a mesma precupação na Espanha e dá pistas de solução. Veja em http://www.quadrante.com.br/pages/servicos02.asp?id=45&categoria=Familia Ainda há esperança possível, mas é preciso agir (e torcer para que tenhamos chegado a tempo, como diz o autor do texto sugerido).

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