Gestão de cidades: desarmando a bomba relógio chamada automóvel – II

A questão do transporte individual, especialmente nas grandes cidades e, mais especialmente, nas megalópoles dos países pobres e emergentes, vem tomando feições explosivas. No “cap. I” deste tema, colocamos o problema, agora passamos a apontar possíveis soluções, a serem implementadas por estágios, já que a cultura de uso do automóvel é muito arraigada.

1o. Estágio: todo o poder ao transporte coletivo

Os dados não são rigorosamente precisos, mas servem para ilustrar. São Paulo (aqui tomada como símbolo da falência do paradigma) tem aproximadamente 6 milhões de automóveis, que transportam apenas algo em torno de 10% da população. Os outros 90% se espremem em aproximadamente 300.000 ônibus e no sistema de metrô, que percorre apenas uma pequena parte da cidade. No fundo, os 10% mais privilegiados infernizam a vida dos outros 90%. E todos andam muito mais lentamente do que poderiam.

“É preciso construir novos viadutos e trincheiras!” – bradamos (por falta de visão sistêmica). Mas é importante avaliar o assunto de forma mais abrangente. Faz sentido investir na construção de caríssimos viadutos e túneis, para facilitar, basicamente, a circulação dos veículos de transporte individual? De forma geral, é razoável pensar que recursos públicos devem ser gastos para beneficiar a maioria e não a minoria. E, neste caso, investir em soluções paliativas para desafogar o trânsito é, ainda, jogar recursos fora, porque, em poucos anos, a capacidade de absorção de veículos fica inteiramente anulada (o tamanho das cidades é finito; a produção de automóveis é infinita). Todo investimento público para o transporte público! Dar alternativas limpas, confortáveis e ágeis,para que todos possam se locomover sem precisar de automóveis. Quantidade e qualidade! De preferência, metrôs subterrâneos ou elevados (vide monorail). Usam eletricidade e, por isto, não poluem. Não ocupam o espaço das ruas. São mais baratos que os metrôs de superfície.

Ofertar transporte coletivo decente: eis o primeiro estágio da mudança.

2º. Estágio: para os automóveis, pão e água

Com um sistema de transporte coletivo de qualidade, não há mais motivos reais para o uso do automóvel. Sobrarão apenas os aspectos culturais: status, comodismo, egocentrismo… Como combatê-los?

Hora de dificultar a vida dos que teimarem em: ocupar 6 (ou 10) m2 de rua, aumentar os índices de poluição atmosférica, colocar em risco a vida (sua e dos outros), atravancar o ir e vir dos demais. Algumas das idéias seguintes já são usadas, com sucesso, em várias cidades do mundo: reservar dois terços da faixa de trânsito para os veículos coletivos; cobrar pedágio urbano; multar veículos com apenas uma pessoa; dotar os veículos de chips para cobrança de “taxa de consumo de vias de trânsito” – sistema usado em Cingapura; (não há “cultura” que resista à “hemorragia financeira”); mais e mais ruas exclusivas para pedestres; criar ciclovias e “motovias” em profusão– em algumas cidades da Escandinávia, já é considerado pouco inteligente não andar de bicicleta.

Uma das coisas mais fantásticas da sociedade atual é que as informações circulam tão veloz e facilmente que podemos aprender com os erros dos outros e não repeti-los. As nações pobres ou em desenvolvimento não têm primeiro que se entupir de automóveis (para benefício exclusivo das montadoras multinacionais, que têm seus mercados cada vez mais restringidos nos países desenvolvidos – em Londres, já é proibido oferecer estacionamento no centro da cidade) para depois descobrirem que embarcaram em um paradigma falido.

No próximo capítulo, uma proposta um tanto mais heterodoxa para o problema.

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