Há exatos 20 anos, em Pequim

Em julho de 1986 – exatos 20 anos atrás – eu estava em Pequim, numa viagem que incluiu também o Japão, a Tailândia e Hong Kong. Era meu último ano no Iraque (onde vivi por cinco anos) e quis aproveitar a distância relativamente pequena para fazer uma viagem por estas paragens exóticas e fascinantes.

Compus, na época, um áudio-visual, com textos e slides (daqueles antigos mesmo, que tirei e adquiri) sobre cada um destes países, contendo minhas emoções e impressões de viagem. Ao longo dos anos, o exibi para muitos alunos, professores e amigos. Agora digitalizado, disponibilizo-o, em forma de CD-Rom (O Planeta Ásia), a quem se interessa (a “preço módico”, acredite -rs).

Ocorreu-me agora reler o texto então por mim escrito sobre a China, país que assombra hoje o mundo, por seu espantoso crescimento e voracidade comercial. Foi um exercício curioso de comparação das percepções e preocupações que eu havia tido, com aquilo que ocorreu ao país, nas duas décadas passadas. Confira alguns trechos.

Fui a Pequim, mas não fui à China, pois a China é muito mais que Pequim e seus arredores. Embora tenha visto muito pouco, atrevo-me a tentar decifrar esta esfinge-país (…) Um fantástico brontossauro começando a despertar, lentamente, de um sono letárgico. Enorme gigante, tão grande e poderoso como os de contos de fadas, tentando levantar-se após a tremenda bebedeira da véspera. Gigantesco mastodonte que, pesada e desajeitadamente, procura libertar-se de imenso poço de areia movediça.

Que imagem será suficientemente forte para ilustrar os desafios dificílimos com que a China se depara? Transformar em energia cinética, em realidade, a fantástica energia potencial que possui; modernizar um país imenso que só há poucos anos despertou para esta necessidade; acompanhar a velocidade de desenvolvimento das grandes potências, mas tendo que puxar, a reboque, um bilhão e duzentos milhões de pessoas. Um bilhão e duzentos milhões de seres humanos para alimentar, matar a sede, vestir, tratar, abrigar, educar, empregar, fazer feliz.
(…)

Levando-se em conta tantas dificuldades, fica mais fácil compreender, pelo menos em parte, a lógica interna do regime político vigente no país. Não se consegue atender, simultaneamente, às necessidades básicas e às necessidades secundárias de um bilhão e duzentos milhões de pessoas. É preciso viver num padrão de extrema austeridade, de despojamento verdadeiramente monástico. É o que se percebe, generalizadamente, no vestuário simplíssimo do povo, no tecido grosseiro dos lençóis, mesmo nos bons hotéis, nos travesseiros enchidos com casca de arroz, na simplicidade das construções, na despreocupação com o acabamento e o visual de qualquer produto industrializado, inclusive com o dos veículos produzidos no país, cujo design antiquado nos faz acreditar que o tempo tenha parado na China nos idos de 1930. (…)

Diante do imenso desafio, é preciso estabelecer prioridades e segui-las rigidamente. É preciso, por quaisquer meios, aproximar o máximo possível de zero a taxa de natalidade. É preciso aplicar proveitosamente cada centavo de moeda forte, proibindo – por exemplo – o gasto de preciosos dólares em viagens turísticas, ainda que isto represente, aos olhos de alguém, um atentado à liberdade de ir e vir. É fundamental preservar o povo do perigo de contágio pelo vírus do consumismo, pois, se os recursos são escassos para o essencial, que dirá para o supérfluo. (…)

Duro e maquiavélico, talvez, mas prático. Prático, talvez, mas não perfeito. Embora, em tese, a lógica pareça adequada, na prática o que se observa é uma flagrante letargia, um concreto imobilismo, uma enervante indolência do povo. Faltam estímulos, perspectivas, desafios, incentivos. É palpável o sentimento generalizado de que, numa sociedade em que o Estado é o patrão, não vale a pena esforçar-se. (…)

Como quebrar estas terríveis correntes que amarram o país? Capitalismo neles! – receitaria alguém, pensando nos inegáveis benefícios do espírito de competição e da livre iniciativa, mas esquecendo-se de que, no caso da China, aplicar ortodoxamente um sistema que privilegia apenas os bem dotados, que concentra nas mãos de ínfima minoria a imensa maioria da riqueza, significaria condenar à miséria absoluta aproximadamente um bilhão de seres humanos, que, embora vivendo em cidades cinzentas, sem luzes de néon, inteiramente privados da possibilidade de adquirir as adoráveis tentações produzidas pela sociedade de consumo, estão providos pelo menos do essencial para que alguém possa ser chamado de ser humano.

Diante do impasse, resta torcer para que dê certo a experiência que começa a ser aplicada em algumas regiões isoladas da China, de um sistema híbrido, meio idealístico, talvez, que poderia ser classificada de Capitalismo socialista ou de Socialismo capitalista, onde se tenta somar os pontos mais positivos dos dois sistemas. (…)

No entanto, do que vi, o que me ficou foi uma enorme curiosidade: conseguirá a China romper as correntes que a prendem? E, se conseguir, como ficará o mundo, a partir do momento em que este gigante despertar inteiramente, resolver seus problemas internos e levantar sua imensa cabeça para olhar em volta?

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Quando se vê hoje o progresso vertiginoso da China, a marcha célere rumo ao capitalismo, o enriquecimento de alguns, o aumento acelerado da desigualdade e a troca das milhões de bicicletas por milhões de carros, deixa-nos perplexos a velocidade da mudança em apenas duas décadas. E mais: a pergunta da última frase do texto passa de curiosidade a preocupação.

Que o herbívoro Brontossauro não se transmude em um temível Tiranossauro Rex.

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