Ignância: um novo vocábulo para um velho problema


Não entendo a polêmica “A Amazônia é propriedade do Brasil ou do mundo?”. Em breve (muito breve, infelizmente), o que haverá é apenas uma Amazônia virtual, em 2D, plana, pois a cobertura vegetal terá desaparecido. Trabalharão, então, por algum tempo, com mais facilidade e vigor, as mineradoras, carcomendo o chão até restar apenas o nada. Terra vermelha, batida pelo vento. Quem vai querer?

De hora em hora, parte significativa daquele extraordinário bioma vai embora. Esburaca-se o pulmão do mundo, vende-se o corpo da floresta – levando junto sua alma - altera-se o clima local e planetário, liqüidam-se inúmeras espécies da flora e fauna, num processo inexorável de transformação da biodiversidade em bio-humanidade (só restaremos nós – por um tempo). “Mas, pelo menos, o desenvolvimento do país não terá sido travado, né?”

Grande consolo. Para quem vão os frutos desse desenvolvimento? Para o povo sofrido do Jequitinhonha? Não. Os frutos têm servido apenas para aprofundar o fosso entre ricos e pobres. Donos de madeireiras e barões do agronegócio – entre outros privilegiados – engordam suas fortunas, lambem os beiços e já olham cupidamente para mais um naco de floresta que teima em atrapalhar os negócios, ficando de pé.

E o pior (?): “Classe alta brasileira consome três planetas Terra, aponta pesquisa” (Folha de SP – 06/06/2008). Toda esta devastação para dar a quem menos precisa o direito de consumir o supérfluo, jogando toneladas de preciosas sobras no lixo. Para os mais pobres sobram os piores frutos: a impossibilidade de pagar os custos astronômicos do alimento e da água tratada. Coisa à toa, para os (poucos) demais.

Trocar ar puro pela fumaça pestilenta dos automóveis. Florestas luxuriantes primeiramente pela monotonia da monocultura e depois por desertos inóspitos. Rios e cachoeiras de águas cristalinas por pútridos tietês e arrudas. Saúde por paetês. Vida por vaidade e dinheiro. Será que não dá para repensar e voltar um pouco mais para o que é básico para ser feliz? Será que não dá para pensar que está na hora de evoluir de uma visão eu-cêntrica para uma visão nós-cêntrica (envolvendo no “nós” tudo o que é vivo e natural)? Será que não tinha razão o Grande Chefe Sioux, em sua carta-resposta(*) à proposta do Presidente dos Estados Unidos de compra das terras da tribo (em 1855!)?

Como podes comprar ou vender o céu – o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre o nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias arenosas, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um pedaço de terra é igual a outro. Porque ele é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga e, depois de explorá-la, ele vai embora. (…)Esquece as sepulturas dos antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. (…)
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem um lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o som das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é para mim uma afronta contra os ouvidos. (…)
Um indígena prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar – animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição. O homem branco deve tratar os animais como se fossem irmãos. (…) Vi milhares de búfalos a apodrecer nas pradarias abandonados pelo homem branco, que os abatia a tiros disparados do comboio. Sou um selvagem e não compreendo como um cavalo de ferro possa ser mais valioso do que um búfalo que nós, indígenas, matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode afetar os homens. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto fere a terra fere também os filhos da terra.
(…)
De uma coisa sabemos que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. (…) A terra é amada por Ele. E causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo seu Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças.
Continua a poluir a tua própria cama e hás de morrer uma noite, sufocado nos teus próprios dejetos! Depois de abatido o último búfalo e domados todos os cavalos silvestres, quando as matas misteriosas federem à gente – onde ficarão então as florestas? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dizer adeus às andorinhas da torre, à caça do fim da vida e o começo da luta para sobreviver…

Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças como era a terra quando dela tomaste posse. E com toda a tua força, o teu poder, e todo o teu coração conserva-a para teus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por ele.

Quando a última árvore for cortada,
quando o último rio for poluído,
quando o último peixe for pescado,
Aí sim eles verão que dinheiro não se come.

Ignância: a soma nefasta de ignorância (das relações sistêmicas, das conseqüências de um modus vivendi tão predatório) com a ganância. Na falta de uma palavra-síntese, cunhei esta e acho que bem reflete o estado em que sempre vivemos, exacerbado nos dias atuais, em que se devasta um Rio de Janeiro de floresta em um único mês. Corrida para o abismo.

Cada vez mais me convenço de que “menos é mais.” Reflitamos. E mudemos. (Já plantou uma árvore hoje? Vá a www.clickarvore.com.br – Não resolve – é preciso muito mais – mas ajuda. Ou, pelo menos, alivia a consciência).

(*) Há controvérsias sobre a veracidade desta carta. O texto às vezes varia, a depender da fonte. Não importa. As idéias continuam valendo. Veja texto completo em http://fis-quim.blogspot.com/2007/11/carta-sioux-ao-presidente-franklin.html


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