Morrer rico é burrice!

Há muitos anos, ouvi uma entrevista de um grande empresário na área de mineração, com atuação no interior da Bahia (que perdoe minha memória, que agora me trai e não me deixa lembrar seu nome). A entrevista tinha como tema o fato de que ele havia construído e mantinha várias escolas para alunos carentes, inclusive pagando professores e funcionários, somente com seus próprios recursos.

O repórter não entendia porque uma pessoa se dispunha a lançar mão de seus recursos financeiros pessoais para fazer algo que “deveria ser feito pelo poder público”. Ele respondeu mais ou menos assim: “Nasci pobre e consegui, com enorme esforço, construir uma fortuna que me propiciou muitas coisas boas na vida. Mas não vou conseguir levá-la para o túmulo e, se a deixar para a família, vou criar é problema. Nasci pobre e acho que devo morrer pobre. Morrer rico é burrice.”

Aquelas palavras vieram de encontro a algo que já pensava há tempos. Talvez por ter nascido em uma família muito pobre e ter tido que lutar pelo meu próprio sustento e progresso pessoal, nunca entendi bem a questão da herança. Como é que podem pessoas que, muitas vezes, não fizeram nenhum esforço na vida receber, de mão beijada, e sozinhos, um recurso financeiro, seja pequeno ou enorme, acumulado com o suor dos pais, apenas porque com eles têm uma afinidade sangüínea? A riqueza não é fruto apenas do esforço pessoal, mas algo que se constrói a partir das condições dadas pela sociedade. Assim, vejo como absolutamente natural que, pelo menos em parte, estes recursos retornem à sociedade.

Sou, portanto, a favor de uma Lei da Herança, em que, para espólios a partir de determinado valor, 70% do patrimônio volte para a Sociedade e 30% seja repassado aos herdeiros. Se estes não souberem trabalhar para ampliar a parcela que receberam, a próxima geração só receberá 15% da quantia original. Até minguar, se for o caso. Este valor, recolhido ao Estado, teria que ter, obrigatoriamente, uma destinação social. Seria “carimbado”, para não correr o risco de ir parar – como direi? – em indevidas cuecas.

Penso que, além de fazer justiça à sociedade, que é quem viabiliza a existência de grandes fortunas e sofre terrivelmente com a desigualdade, tal medida seria profundamente educativa, evitando que a certeza da herança continue a gerar jovens fracos de vontade, que, muitas vezes, buscam no hedonismo desenfreado e nas drogas a emoção que lhes foi negada, ao se tirar deles o insubstituível prazer da conquista.

Tenho duas filhas e, desde muito cedo, procurei incutir-lhes a idéia de que não contassem com herança, por menor que fosse. E que entendessem que o papel “provedor” dos pais ia até um certo limite: obrigações como afeto, respeito, alimentação, saúde e educação de boa qualidade. Ou, de maneira simplificada, “casa, comida e roupa lavada”, mas somente enquanto não fossem capazes de providenciá-los por sua própria conta. Carro? É conquista pessoal (90% dos brasileiros andam de ônibus). Apartamento? Em país que tem financiamento habitacional, como o nosso, que permite adquirir um apartamento pagando até menos de R$100,00 por mês, não há sentido em que os pais se sacrifiquem eternamente para dar um apartamento para cada filho.

E não me esqueço da profunda emoção da Luciana, a mais velha, quando preencheu um cheque de quase R$3.000,00, fruto da poupança que a estimulamos a fazer, sobre o salário que ganhava do emprego que também a estimulamos a buscar, a partir dos seus 18 anos. Era para dar de entrada no primeiro carro que comprava, um Fiat Uno 97: “Pai, estou tremendo… nunca preenchi um cheque meu com um valor tão grande!”

Em síntese: tiradas as obrigações normais para com os filhos, o que foi conseguido pelos pais deve servir para o seu conforto em vida e para diminuir as desigualdades sociais, de preferência ainda durante a própria vida – até para que possam usufruir do supremo prazer de ver os resultados de sua ação social – ou, na pior das hipóteses, após sua morte. Aos filhos cabe aproveitar as condições favoráveis de saúde e educação que os pais lhes deram para construírem, com competência e legitimidade, seu próprio patrimônio.

Tudo isto me vem à mente quando leio no jornal que o investidor Warrem Buffet, o segundo homem mais rico do mundo, vai doar 85% de sua fortuna de 40 bilhões de dólares para causas filantrópicas. Diz o editor da revista “The Economist”: “Nos EUA, há essa cultura capitalista de “o ganhador leva tudo”. Mas, ao mesmo tempo, há um contrato social tácito, em que os vencedores da sociedade têm de ajudar os perdedores.” Diz mais: “Deixar uma grande herança (…) pode causar uma mal maior para esses herdeiros (…) porque eles podem ficar muito mimados e perderem a noção do valor do dinheiro, da importância de trabalhar…”

E sobre os ricos brasileiros, ele fuzila: “Os ricos do Brasil estão mais assustados com a situação de desigualdade social que seus pares de outros países. Não é por acaso que cresce tanto o número de carros blindados e de helicópteros para escapar da violência.”

Quanta diferença!… Mais uma vez o erro trágico de atacar o sintoma ao invés da causa. No fundo, todos sabemos que será cada vez mais difícil escapar da violência gerada, em grande parte, pelo egoísmo e a desigualdade. Assim, a morte continuará a nos espreitar em cada semáforo. Talvez alguns se contentem em pensar que, se morrerem, terão um enterro de luxo, com direito até a um mausoléu em mármore, no mais sofisticado cemitério da cidade, para matar (outra vez?) de inveja os vizinhos. Por mim, ainda que sem pertencer à “classe”, continuo a acreditar que morrer rico é burrice!

4 Comentários
4 Comentários
  1. Gostei da reflexão.Porém a sugestão de se transferir ao Estado parte das conquistas de um cidadão, acredito que o Estado é o maior beneficiário do cidadão quando em vida.
    Um abraço.
    Cesar Bonifácio.

  2. De fato, ao olhar para o “estado” do nosso Estado, não deixa de ser assustador imaginá-lo recebendo mais contribuições do cidadão e não dando nada em troca. Mas acho que a questão de fundo é a necessidade da redistribuição (a forma pode ser melhor arquitetada). Um exemplo a ser analisado é o da social democracia nos paises escandinavos, que taxa fortemente as grandes fortunas e as redistribui, em serviços de primeira qualidade a todos os cidadãos. Grato pela contribuição.

  3. De fato o egoísmo e a desigualdade é muito grande em nosso País as pessoas ainda não entenderam isso, mas acho que deixar herança pro estado gerenciar ainda mas como o nosso que de tudo fazem para por dinheiro na cueca ainda não é a solução, ainda em vida a pessoa rica deveria ajudar de alguma forma os que não são dando mas oportunidades por exemplo.

    Abraços

    • Sem dúvida, não temos ainda muitos motivos para acreditar no Governo como bom administrador de recursos. Sua proposta é inteiramente válida: há muitas instituições sérias a quem parte dos recursos pode ser encaminhada. Grandes coisas poderão ser feitas para muitos ao invés de para alguns poucos que estariam apenas “ganhando na loteria”(sem jogar).
      Grato pelo contato.
      Lúcio

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