Mundo real e mundo virtual: onde está mesmo a diferença?

Diante da velocidade e das possibilidades abertas pela evolução estonteante das Tecnologias da Informação e Comunicação, viabilizadas pelos computadores, smartphones, tablets e equipamentos móveis diversos, que permitem acesso ilimitado ao ilimitado universo da Internet, a tendência natural é de se achar que a roda foi reinventada. Ou seja, que estamos diante de algo absolutamente novo e até de uma nova sociedade. Quem não se lembra do termo “Nova Economia”, que foi cunhado no “boom” da Internet por volta do ano 2.000, em que se pensou que as empresas virtuais substituiriam definitivamente as de tijolo e que, mais ainda, o comércio eletrônico representava a “reinvenção” da própria economia?

Pois bem, apesar das muitas diferenças tópicas, “tudo continua como dantes, no quartel de Abrantes”, na essência. Ou seja, o chamado “mundo virtual” não passa de um espaço onde pessoas reais continuam a se encontrar e a se desencontrar. Ali se esbarra com a velha humanidade, com todas as suas grandezas e misérias. Como acontece numa cidade real, encontram-se, na “cidade virtual”, os mesmo tipos humanos: os altruístas, os hedonistas, os sedentos de saber, os folgados “copistas” , os curiosos, os éticos, os golpistas, os pedófilos, os bandidos de toda ordem, incluindo os batedores de carteira. Só mudam os instrumentos usados. E a velocidade do lucro e do prejuízo.

Para os pais de crianças e adolescentes, especialmente os efetivamente preocupados com a educação e segurança dos filhos (os outros não contam, pois só procriaram), parece ser uma ameaça inteiramente nova esta da Internet e das redes sociais. Será tanto assim?

Antes, por exemplo, o contato entre jovens (e também adultos), era por carta ou telefone fixo. Hoje, se faz pelas chamadas redes sociais. Muito mais rápido e instantâneo, mas, essencialmente, apenas um instrumento de comunicação. Lembro-me, quando pré-adolescente, de corresponder, em inglês, com uma mocinha alemã – minha primeira paixão “virtual” (a foto que me enviou dava apenas para imaginar como era efetivamente). Paixão tão forte que me faz lembrar até hoje de seu nome e sua cidade, que me faziam sonhar – Marianne, Ludwigshaffen.

Outro hábito era usar escondido (porque ficava muito caro) o telefone de casa para ligar para algumas mocinhas, às vezes desconhecidas (o Google da época, o Catálogo Telefônico, ajudava a encontrar potenciais “alvos”). Na conversa, eu (e todos e todas), sempre me pintava com cores um pouco mais favoráveis do que as reais. Hoje esta prática de “superfaturamento da imagem” se exacerbou, mas, na essência, é a mesma. Mas há uma agravante: antes, era uma prática inocente; hoje pode ser usada para fins criminosos.

Sobre outro ponto que assusta hoje – a pedofilia na Internet. Pedófilos sempre houve, só que, no passado, eram poucos (pelo menos os conhecidos) e chamados de “tarados”. Ofereciam balas e outras guloseimas às criancinhas desavisadas. Os pais viviam a nos alertar para este perigo.

Apesar de não haver tanta mudança, na essência, há, no entanto, que se preocupar sim, pois a vida se tornou muito mais complexa dos meus tempos de criança para cá. O mundo se tornou menos inocente, a população aumentou muito (inclusive a de criminosos), a rapidez e abrangência global das comunicações se intensificou, a sofisticação dos golpes e das formas de abordagem se ampliou.

Como defender nossos filhos destas novas ameaças, mesmo que não sejam tão novas assim?

Algumas lições podem vir do passado, com alguns ajustes (os tempos são outros):

1. Só reprimir, proibir, fiscalizar, impedir drasticamente dificilmente funciona; diálogo é fundamental; crianças e jovens de hoje não aceitam imposições, sem explicações; informar e justificar normas é importante, inclusive falando abertamente sobre as ameaças existentes; no entanto, se todas as explicações foram dadas e, ainda assim, o(a) filho(a) não se conforma, é hora de os pais imporem sua vontade;

2. Resgatar a autoridade dos pais; filhos não têm maturidade (nem direito) para mandar na casa (como tem acontecido); a última palavra deve ser sempre dos pais;

3. Limites: palavra mágica.

4. “É de pequenino que se torce o pepino”: máxima ainda não revogada; quanto antes se iniciar o processo educativo, inclusive quanto ao melhor uso dos recursos tecnológicos, melhor;

5. Não conversar e não aceitar nada de estranhos; não dar informações particulares, como endereço, nome dos pais, etc: recomendações aos filhos, tão antigas e tão contemporâneas.

Sugestões práticas aos pais:

1. Se ainda não são, alfabetizem-se tecnologicamente; frequentem as redes sociais; saibam, por exemplo, o que é “phishing” e “engenharia social”, algumas das formas mais comuns de extrair informações dos incautos; isto lhes permitirá conversar de igual para igual com os filhos; aliás, eles poderão ser seus “instrutores” em muitas coisas;

2. Leiam tudo o que puderem, na própria Internet, sobre formas de proteção;

3. Lugar de computador é em ambiente público da casa, com a tela voltada para onde as pessoas passam toda hora; nada de computador no quarto;

4. Dar tablets e smartphones com planos ilimitados de Internet para crianças pequenas ou adolescentes imaturos, é escancarar as portas; ser “moderno” não é expor os filhos tão diretamente às ameaças; há muito brinquedo analógico, muito interessante e menos arriscado, além de muito educativo;

5. Estabelecer tempo e hora para uso da Internet; restringir o acesso a determinados sites, através de palavras chaves e com o uso de modernas ferramentas disponíveis para os pais; pedir ajuda a quem entende, para configurar estes instrumentos; explicar aos filhos por que está fazendo isto, sempre que necessário; aprender como verificar por quais sites ou ambientes
virtuais andaram seus filhos enquanto vocês estiveram ausentes (assim como nossos pais faziam, ao procurar saber quem eram nossos amigos, na casa de quem iríamos, etc); é direito (e dever) dos pais vigiar; isto não tem nada a ver com “invasão de privacidade”, mas com proteção, enquanto os filhos ainda não são capazes de provê-la por si mesmos;

6. Não se furtar ao embate com o filho adolescente que quer varar a madrugada em papos infindos; a casa deve ter normas e horários, que devem ser respeitados;

7. À medida que as crianças vão crescendo, amadurecendo e demonstrando responsabilidade, as normas podem ir-se afrouxando, de forma controlada.

Educar os filhos para usufruírem, com inteligência e segurança, dos benefícios do mundo virtual é tão importante quanto a educação que deve ser dada para se viver no mundo real. Agir com honestidade e bom senso, aproveitar as coisas boas e ignorar e proteger-se das ruins: estas são as regras básicas para os dois mundos.

Como na selva de pedra do mundo real, para sobreviver e se livrar dos ataques dos “predadores”, é preciso estar em eterna vigilância também no “ciberespaço”. Sem neuras, mas sem ingenuidade também.

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