REFLEXÕES PÓS PISA/2012

59o. lugar no PISA/2012; nenhuma Universidade entre as 10 melhores dos países emergentes: que podemos esperar?

Entendo que pouco mudará se não houver a compreensão – sincera e não apenas eleitoral –  do papel estratégico da educação na sociedade – e, por consequência – uma valorização diferenciada para a profissão de Professor.

Como atrair – e reter – TALENTOS para esta profissão, cujo salário é ínfimo, especialmente quando comparado ao de médicos, engenheiros e outras profissões mais valorizadas? Os profissionais mais talentosos das várias áreas do mercado aceitariam viver – por amor à docência – de um salário que vai de 1.000,00 a no máximo 6.000,00 (após mestrado, doutorado, etc), fora raras exceções?

O Brasil não quer pagar o custo real da educação. O aluno particular não aceita (ou não pode) pagar o custo real da educação. Todos acreditam ainda que basta ter um diploma, qualquer que seja, como no passado. E adquirido da forma que for (cola, compra de gabaritos do Vestibular…). Ledo engano, mas, enquanto não se percebe que o que vale agora é a COMPETÊNCIA (e a consequente COMPETITIVIDADE), que só pode ser adquirida através de escolas e professores de EXCELÊNCIA, BEM REMUNERADOS, CONTINUAMENTE AVALIADOS, RECOMPENSADOS POR RESULTADOS E SOCIALMENTE RESPEITADOS, vamos fingindo ser um país de verdade (apesar de tanta miséria, de tanta violência, de tanta corrupção, de tanta agressão aos princípios elementares de gestão e coisas mais).

Enquanto isto, aceitamos gastar mais de 3 bilhões por ano com os 81 senadores (que RESULTADOS mesmo nos entregam?) e pagar um salário BASE (e o resto?…) de 26.000,00 para deputados quaisquer, inclusive presidiários.

O caminho nós sabemos. Que surjam lideranças capazes de implementá-lo. Do contrário, é nos resignarmos ao terceiromundismo, a estar na rabeira no PISA, a comer a poeira das melhores universidades mundiais, a continuar vivendo dos buracos deixados pela exportação de minério de ferro a dez centavos de dólar o quilo (cem, + ou – , por tonelada). E salve-se quem puder.

PS: não posso atestar a credibilidade da fonte, por não conhecer, mas os dados apresentados no link abaixo estão, no mínimo,  bem próximos da realidade do mercado educacional - http://www.profissionaisti.com.br/…/ja-pensou-em-ser…/ . Ver para crer.

LÚCIO FONSECA

Consultor Educacional e Empresarial

5 Comentários
5 Comentários
  1. Querido Lúcio:
    Meu texto vai ser longo, mas espero poder explicar como anda nossa situação nas universidades federais.
    Como você sabe, sou professora adjunta – 40h – com dedicação exclusiva da UFPel desde 2010 e hoje coordeno um curso de Bacharelado em Tradução Espanhol-Português, que matricula, por ano, apenas 10 alunos. Este ano temos apenas 01 (uma) formanda e, no próximo semestre, teremos mais 01(uma). Ou seja, 10% de cada uma de duas turmas.
    A real situação é a seguinte: o Curso só abre 10 vagas ao ano porque os alunos da Tradução (entenda-se Esp-Port e Ing-Port) frequentam disciplinas com turmas das 05 licenciaturas e de outro bacharelado (Redação e Rev. de Textos) que matriculam 40 alunos por ano cada um.
    Na época que surgiram os cursos de Tradução, alegou-se que o número de 10 seria adequado para a assistência individual que o curso exige e também não “incharia” tanto as salas de aula das citadas disciplinas.
    Bem, hoje o curso conta com apenas 01 professora (euzinha) que tem que dar conta da coordenação do curso (20h/semanais), as aulas práticas de tradução de Língua Espanhola (08 disciplinas, no total – 16h/aula semanais neste semestre) e os projetos de Extensão Universitária (tenho 02 projetos que estão relacionados à prática laboral dos estudantes – com 02 parcerias externas) e de Pesquisa (Sou coordenadora de 01 projeto e colaboradora em outro). Tenho também a orientação de um bolsista de iniciação científica e outra da extensão. Se você somar as horas de trabalho, vai conseguir, pelo menos, 60h semanais, que não são suficientes para cumprir os despachos administrativos, as revisões das traduções das turmas, as orientações, as coordenações e as parcerias, entre outras coisas, à parte, que vão aparecendo (como a revisão do Projeto Pedagógico e mudança curricular e o encargo de uma das edições de uma revista das Letras, relatórios vários, por exemplo.) Nos semestres anteriores tivemos que deixar algumas turmas sem professor em algumas disciplinas práticas e no próximo não será diferente.
    Há uma norma, na legislação do MEC, que diz que o professor que assume cargo administrativo deverá reduzir sua carga horária em 50%, visto que os citados cargos requerem dedicação aos procedimentos burocráticos do curso (que chegam de todos os departamentos e por todas as vias de comunicação possíveis). No semestre passado tive 20h/aula efetivas (ou seja, sem contar horas de planejamento e correção de exercícios). Se eu desse a disciplina que deixei descoberta, ficaria com 24h, ou seja, o TRIPLO do horário destinado ao Coordenador de Curso. Neste estou com com 16 e, se não vier um colega, ficarei, novamente com 16, porque deverei assumir uma das disciplinas que ficaram descobertas e com mais alunos, agora (lembra do atendimento individual?).
    Agora, você deve estar se perguntando por que só há uma professora para dar conta de tudo isto. Eu explico: no ano passado, tínhamos 02 professoras substitutas, que tiveram seus contratos finalizados no fim do ano. Houve distribuição de vagas para professores e nós, da tradução (dos dois pares de línguas) tivemos, em vez de 02,
    (duas) vagas, apenas 01 (uma), enquanto cursos com maior número de alunos chegaram a ter 03(três) vagas.
    Há, para a distribuição de vagas, um tipo de cálculo, creio que vindo do Governo Federal, que usa um parâmetro de 16 alunos por professor, no mínimo. Então, se no nosso curso ingressam apenas 10 alunos/ano, essa conta NUNCA vai fechar para nós, e, provavelmente, a situação vai continuar sendo a mesma.
    Já fiz vários memorandos com pedidos de professor efetivo ou substituto ou visitante ou qualquer coisa parecida para dividir as atividades comigo, mas sempre tenho o mesmo retorno: o seu curso tem turmas menores do que o parâmetro para cálculo prof.x aluno – ou seja, sempre um NÃO.
    Nossas aulas práticas devem ser feitas em computadores individuais e com softwares de tradução, mas nosso laboratório conta apenas com 02 computadores para 18 alunos (que na verdade, pode se contar com apenas 01, porque o outro está cheio de problemas porque é antigo e a potência é mínima, demora-se muito para acessar a internet e até mesmo os programas do office.) Não conseguimos muitos incentivos para a pesquisa e o orçamento deste ano para nós, ofereceu R$ 2.000,00 para serem usados durante TODO O ANO em despesas rotineiras (mas não pode comprar material permanente).
    Não vou falar sobre a qualidade dos alunos que nos chegam via SISU e PAVE.
    Muitos alunos vão desistindo durante o curso quando veem que não há infraestrutura nem professor para todas as disciplinas. Somos cobrados constantemente nos quesitos qualidade e permanência dos alunos no curso (Responsabilidade dos coordenadores, segundo exigência do MEC). Os avaliadores do MEC devem, talvez no próximo semestre, visitar nosso curso para avaliar para o reconhecimento e vão encontrar esta situação.
    Vemos outros cursos, que são das áreas de Tecnologia (os diamantes universitários) e os da área da Saúde, das Engenharias e do Direito, com situação oposta do nosso (nós somos das Humanas, irrelevantes, desprezíveis). Em alguns, pelo cálculo da reitoria, SOBRAM de 10 a 30 professores, pois a prioridade nas distribuições de vagas anterior foi para eles. (Fico pensando o que eles fazem lá.)
    Isto é o que a gente vive na UFPel. É esta a realidade das universidades públicas (estive na UFRGS e nos cursos das Letras, lá, não é diferente).
    Quanto ao nosso salário inicial, é de um pouco mais do que você citou: algo em torno de R$ 8.600,00 bruto (considere um desconto mensal, nesta fonte, de 27% de previdência social e de IRPF), mas nosso plano de carreira, reestruturado no ano passado, depois da greve, é vergonhoso. Um professor, agora, precisa trabalhar 17 anos para chegar ao topo da carreira com um salário, consequentemente, maior. A maioria nem chega a esse degrau, porque se aposenta bem antes dos 17 anos.
    Bem, meu texto é enorme, mas creio que pude refletir aqui parte do problema que nós, professores universitários das federais sofremos.

    • Caríssima Marisa,

      Pois é: enquanto vivemos este caos que você bem relata, nossos concorrentes estão há décadas investindo fortemente em educação e colhendo belíssimos frutos. A China brilha no PISA e já tem várias de suas universidades entre as melhores do mundo. E por aí vai. Aqui, vamos expoliando ao máximo quem se dispõe a ser professor e não criamos nenhum atrativo para que jovens talentosos vejam nesta bela – e estratégica – profissão uma opção de vida. Como estão nossos cursos de Licenciatura? Qual é o perfil das poucas pessoas que ainda os procuram? Com que bagagem, oriunda de uma escola pública em frangalhos (salvo honrosas exceções), chegam à Universidade? E se Deus não for brasileiro: como faremos?

      O jeito é fazermos cada um a nossa parte: você aí, na linha de frente, fazendo um trabalho sempre de primeiríssima qualidade (sem deixar de reivindicar e denunciar as condições precárias) e eu aqui, nos bastidores, tentando jogar alguma luz sobre a questão, apontar caminhos e conscientizar quem eu puder. Não podemos é desistir. Vamos juntos! Grande abraço.

  2. Lúcio,
    Que excelente reflexão!
    Infelizmente o conhecimento não é um valor para a sociedade brasileira. Todos falam em educação, investimentos em educação, mas eu penso que, no fundo, o que as pessoas querem dizer é que precisam conquistar um diploma. Não importa como vamos obtê-lo, em que condições nossos professores vão trabalhar. Importa sim que o diploma chegue até nós. É a sociedade dos títulos. Não é a sociedade do conhecimento. Nós, que já estivemos em sala de aula, quantas vezes vimos nossos alunos pararem de frequentar as aulas ou de leva-las a sério depois de atingirem o mínimo de pontos para passarem de ano? Os próprios pais que marcam viagens antes do término do ano letivo, depois de confirmada a aprovação do filho pela nota mínima? E o conhecimento? E o aprender? Não, querido educador, isso não conta.
    E assim vamos levando. Na base do jeitinho. E é nessa base que vamos sendo ultrapassados. Uma pena! Nossos jovens estão cada vez mais espertos, criativos, mostram-se muito mais capazes quando lhes desafiamos. Mas infelizmente, da forma como estão tratando a educação nacional, eles andam cada vez menos exigidos. Dá menos trabalho. Se exigimos menos deles, não precisaremos de bons professores. Professores pouco qualificados ou pouco exigidos e desafiados não precisam de bons salários ou boas condições de trabalho. Aí fica fácil para se contratar engenheiros desempregados para lecionar matemática, advogados que não passaram no exame da ordem para lecionar história, português… e por aí vai descambando a combalida educação brasileira. Espero que, no futuro, meus netos – se eu os tiver – possam desfrutar de um país onde reflexões como a sua possam acordar a sociedade e dar a eles alguma esperança de futuro.
    Um abraço

    • Caríssima Sílvia,

      É isto: o tempo passa e a situação da educação só piora. Uma irresponsabilidade com o futuro do país.
      Penso que ter professores talentosos e motivados é um ponto de partida, mas teremos que trabalhar muito a mentalidade de “lei do menor esforço” que campeia em nosso país. Não há país nem pessoa que vença na vida sem metas e estratégias bem definidas e implementadas com esforço, competência e muita disciplina.

      O que podemos fazer é, pelo menos, alardear esta necessidade. Vá ajudando aí a divulgar.

      Grande abraço.

  3. Sinceramente, Lúcio?Vi nesta tua página uma maneira de desabafar. Não podemos nos expor muito publicamente, ainda mais com este governo pseudo-comunista-ditatorial que temos. Não sei mais o que esperar. Um grande abraço.

Comente