Uma verdade indigesta: o problema somos nós
Lúcio Fonseca*

O IPCC, órgão internacional responsável pelo estudo de alterações climáticas, afirma categoricamente que a atividade humana é a maior responsável pelo aquecimento global. Havia dúvidas?

Somos, infelizmente, responsáveis por muitos danos mais e, sem querer fazer terrorismo (mas já fazendo), é difícil pensar em retorno a um estado de equilíbrio, por mais esforços que se façam. E há muito que fazer. E pouco que tem sido feito.

É preciso sempre exercitar a visão sistêmica, a capacidade de enxergar o todo, o conjunto das partes e suas relações. Fritjof Capra é mestre em nos mostrar isto cristalinamente, com sua teoria dos sistemas vivos e sua percepção da teia como a forma por excelência de estruturação da vida e da natureza. Se conseguirmos ter uma visão de conjunto do planeta (microcosmo inserido num infinito macrocosmo), é possível que consigamos nos dar conta de nossa verdadeira posição na natureza: a de uma das espécies e não a da espécie superior e proprietária de todo o restante.

É interessante notar como todos achamos que o planeta é nosso. Até mesmo quem defende a natureza argumenta que devemos preservá-la para os nossos filhos e netos, para as próximas gerações. Como se fôssemos os donos do pedaço, os senhores de engenho (e nossos filhos e netos os sinhozinhos e sinhazinhas), a quem todos os outros seres devem servir e prestar vassalagem. Sem nenhum direito próprio

Está na hora de revermos este conceito. Nem somos os primeiros a aqui chegar. O homem consciente de sua existência e atos surgiu há cerca de 60.000 anos na África, afirma o professor Michal Kobusiewicz do Instituto de Arqueologia e Etnologia da Academia Polonesa de Ciências. Somos uma criancinha, num planeta onde a vida surgiu há mais de 3 bilhões de anos. Uma criança mimada, birrenta (Eu quero!!) e extremamente cruel para com os seres à sua volta. Cruel… irracional (embora, ironicamente, nos achemos o único ser racional da natureza….).

Quem mais na natureza fabrica bombas e as joga sobre a cabeça dos semelhantes? Quem mais usa armas nucleares e ameaça o semelhante o tempo inteiro com o disparo das mesmas, a despeito do risco de explodir ou tornar inabitável, pela radiação, o planeta inteiro? Quem mais na natureza seqüestra? Quem mais na natureza assassina para roubar um tênis ou comprar droga? Quem mais na natureza se apropria do dinheiro público para adquirir carros e lanchas importados, à custa da miséria de milhões? Quem mais na natureza mete fogo na floresta para criar gado ou plantar soja? Quem mais na natureza mata por uma ideologia ou uma religião, construções mentais que variam de grupo para grupo humano? Quem mais na natureza assassina 160.000 elefantes em poucos anos? (Na ásia, eram 200.000 no século XX; hoje são 40.000). Quem mais na natureza transforma elegantes araras azuis em dinheiro? Quem mais na natureza ocupa 6 a 8 m2 de vias públicas para se deslocar (em caixas retangulares, chamadas automóveis, que cospem uma fumaça que mata lentamente)? Quem mais invade o habitat das outras espécies e o destrói sem cerimônia? Quem mais transforma árvores-fábricas de oxigênio em dólares, em forma de pranchas de madeiras nobres? Quem mais admite até que os pólos derretam, que epidemias tropicais invadam o hemisfério norte, que milhões morram, para que a economia não seja afetada? Quem mais, como na China, é capaz de poluir 70% de seus rios e contaminar 90% das águas subterrâneas? Quem mais provoca a extinção em massa da fauna e da flora, eliminando brutalmente a vida por onde passa? Quem mais é capaz de matar os poucos chimpanzés e gorilas remanescentes, invadindo os já parcos santuários ecológicos que lhes sobraram? (“Chipanzés e gorilas estão sendo caçados juntamente com elefantes, antílopes, miríades e outras espécies, para virarem comida . E não é para alimentar as pessoas famintas, mas para satisfazer um gosto por carne de caça da elite urbana (Jane Goodall) – Todas as 235 espécies de primatas estão listadas na Convenção sobre o comércio Internacional das espécies da fauna e da flora selvagem ameaçadas de extinção, com exceção dos humanos. Um terço de todos os nossos parentes primatas está em perigo de extinção; conseqüência das ações de outro da mesma espécie, os humanos… Perseguidos no passado por atiradores que procuravam troféus de caça, os primatas são mortos hoje para satisfazer a demanda dos turistas por comprar lembranças de viagem. Peles atrativas de macacos e mãos de gorilas transformadas em cinzeiros são lembranças bem populares. – http://www.animalplanetbrasil.com/guia_primatas/primatas_perigo/index.shtml).

Quem mais produz tantos dejetos em proporções tão pantagruélicas e os lança criminosamente em qualquer lugar, conspurcando riachos virgens, assoreando os rios e contaminando inapelavelmente tudo o que com eles entra em contato, como a peste negra que varria a Europa em tempos medievais?

Mas as coisas são e poderão ficar piores do que imaginamos (para não desanimar, leia até o fim). Este ser “fantástico”, acima descrito, se reproduz – perdoem-me os puristas – como coelhos. Em poucas décadas, um crescimento exponencial nos trouxe ao estonteante número de quase 7 bilhões!! 7 bilhões de seres vorazes, qual nuvem de gafanhotos, a devorar tudo o que encontram pela frente, sem limites e sem lei, que não seja a da própria sobrevivência e do enriquecimento a qualquer preço, a da prepotência, a da vaidade, a do comodismo, a do extrativismo obsessivo e consumo desenfreado e irracional.

7 bilhões de seres que, por serem dotados de uma inteligência “operatória”, foram capazes de praticamente eliminar ou neutralizar a ação de seus antigos predadores – os animais selvagens, os vírus e bactérias – rompendo o sábio equilíbrio natural. 7 bilhões de seres que vivem cada vez mais e se reproduzem geometricamente (aos 75 anos, um ser humano terá produzido, em média, 39 descendentes, à base de meros 3 filhos, em média, por pessoa). Principalmente nas comunidades mais pobres – nas periferias das grandes cidades, nos grotões do Brasil ou nas vilas africanas – “família grande” ainda é motivo de orgulho. Ou de conveniência (salário família, bolsa família e outros estímulos…). “Crescei e multiplicai-vos”… mesmo para quem não leu a Bíblia, a máxima é mais que válida. Não é à toa que, anualmente, mais de um milhão de adolescentes americanas, de todas as classes sociais, ficam grávidas. E tome filhos rejeitados, mal nutridos, vivendo nas ruas e na marginalidade. E procriando. E gastando recursos naturais. E criando montanhas de dejetos…

Sou uma pessoa de hábitos (julgava eu) comedidos. Calculei o tamanho de minha “pegada ecológica” em http://www.earthday.net/footprint/info.asp?language=portuguese&country=portugal . Se todos os seres humanos consumissem recursos e gerassem dejetos como eu, precisaríamos de 2,6 planeta Terra para dar conta de nós!…

Somos um organismo tentacular, que cresce sem controle e que suga vorazmente a energia e os recursos do organismo maior. Se a Terra for de fato Gaia, um organismo vivo, como descreveu o cientista James Lovelock, estamos para ele como um tumor cancerígeno está para o ser humano: instala-se, cresce, drena a energia do organismo, suga-a com tal voracidade que leva seu hospedeiro à exaustão e o mata, num processo, paradoxalmente, também de auto-extinção.

Santa mãe de Deus! Será este o nosso destino? Não haverá modo de frear este bólido que se dirige ve
rtiginosamente para o abismo? Haverá lugar ainda para a esperança?

Talvez…. Esta mesma besta-fera é capaz de produzir a mais refinada arte. É capaz de se emocionar ao ouvir uma bela música. De se encantar com a nova flor de orquídea que surgiu no vaso. De extasiar-se diante de um pôr-do-sol ou de uma lua cheia… De sentar na porta de suas casas ao entardecer e trocar pão de queijo pelo muro com os vizinhos (como bem me lembrou meu mano José Júlio)… Talvez seja capaz de acordar a tempo para a tragédia iminente e de colocar um freio em suas ambições, de sair de seu “egoísmo ecológico” e se perceber como parte… como a parte mais responsável, por ser dotada de um aparelhamento intelectual sofisticado. Quem sabe?

Quem sabe será capaz de perceber que a vida vivida com mais simplicidade pode ser mais rica de significado e menos prejudicial ao meio… Que não é justo, apenas para deleite próprio (“Que gracinha!”), colocar mais e mais seres no planeta, sem pensar nas conseqüências para eles e para o próprio planeta, principalmente se optou por viver mais… que andar a pé não é vergonha, mas um jeito saudável e gostoso de conhecer a cidade e mais pessoas… que roupas feitas de peles de animais, assim como a caça e a pesca esportivas (matar é um esporte?!), e pesca com redes de arrasto – que devastam preciosos ecossistemas – são uma confissão de estupidez, de ignorância… que o canto natural das aves vale mais que mil CDs… que garrafas PET deviam ser chamadas de garrafas PESTE… Que preservar a natureza em torno de si e respeitar os vizinhos – sejam gente, planta, montanha ou animal – é obrigação moral de cada habitante deste condomínio-planeta, uma vez que os direitos dos “condôminos” são iguais… que o espaço disponível é para ser dividido com os demais seres e não invadido e conquistado por uma só espécie (ah, se soubessem da beleza e importância estratégica da biodiversidade…)… que não há som mais doce que o das cachoeiras e do farfalhar do vento nas folhas das árvores… que não há prazer maior do que respirar ar puro…

O problema somos nós. Quem sabe, a solução também? Somos suficientemente inteligentes para dar um basta nas atrocidades que temos cometido. E para entender que reduzir drasticamente a natalidade, em todo o mundo, por exemplo, não é uma atitude totalitária, mas de autodefesa e, especialmente, de sabedoria, humildade e cuidado para com os outros elementos do planeta. Inclusive os seres humanos que virão (em menor quantidade, pede o planeta).

Há que manter as esperanças, mas agindo. Inácio de Loyola uma vez disse: “Trabalha, como se tudo dependesse de ti, e confia, como se tudo dependesse de Deus.”

* Palestrante e Consultor
educacional e empresarial

7 Comentários
7 Comentários
  1. Lúcio,
    vc nos faz reconher a nossa bestialidade ao mesmo tempo que propõe ações simples para este ser humano que povo o planeta. Vamos ser simples…

  2. Lúcio,
    Vc é D+!
    Este texto deveria estar nos livros de Biologia do Ensino Médio!
    Abç.
    Rosamaria

  3. Fala Lucio!!! Desculpe a falta de acentos, esse teclado esta desconfigurado.
    Voce eh um cara fantastico! Voce e o Jose Julio so nos enchem de orgulho. Belissimas palavras.
    Salve os Lucios e os Inacios de Loyola desse sofrido planeta.
    Guilherme Fonseca.

  4. Parabéns Lúcio, pelas palavras duras porém suaves e verdadeiras. Parabéns também pelo discernimento tão escasso. Aproveito para acrescentar que somos o produto da realidade que escolhemos. Tento de todas as formas dirigir meus pensamentos para aquilo que é eticamente responsável mas sinto-me muitas vezes mergulhado na inércia Terrena que nos domina e assola. Encontro esperança quando vejo a lucidez de suas palavras me esvaindo da solidão. Acredito que somente atitudes como a sua realmente fazem efeito. Devemos deixar o egocentrismo de lado em busca de nossa sobrevivência e de uma vida MAIS HUMANA e RACIONAL.

  5. É isto, Wagner. Só existe uma saída: mudarmos de um paradigma individualista, antropocêntrico, para um outro, de solidariedade sistêmica, holístico. Temos pouco tempo para fazer isto, senão…
    Apesar de tudo, continuo acreditando. Trabalhemos juntos!
    Grande abraço.

  6. Lúcio,
    Continue sendo um inteligente porta voz dos que se precupam com a vida em nosso planeta. A natureza nos recompensará quando, coletivamente, posicionarmos de maneira criativa no enfrentamento dos grandes problemas que nós mesmos criamos.
    Um abraço,
    Joaquim Júlio.

  7. Joaquim,
    Ao fazer o meu humilde papel de “isca de yougurte”, ao tentar fermentar/influir na minha área, o que sonho é em formar outras “iscas de yougurte”, que possam ampliar infinitamente o processo de fermentação de idéias e ações.
    Grato. Lúcio

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