URGENTE: PRECISAMOS DE UM CHURCHILL

Os recentes acontecimentos no Rio de Janeiro podem ser vistos por duas óticas. Uma de curto alcance: a vitória das forças policiais sobre os traficantes; outra de longo alcance: a possibilidade real de uma mudança sócio-comportamental de enormes proporções.

Mais do que “botar pra correr” uma chusma de bandidos, a ação combinada recobrou no Rio – e, por extensão, no país – o sentimento de que a mão forte da lei e do estado de direito é mais poderosa que as que empunham fuzis contrabandeados do Paraguai. O sentimento de que é possível acreditar em não ter mais “cidades proibidas” dentro das cidades. O povo apoiou, não só moralmente, mas ativamente, através do disque-denúncia. Uma grande onda de solidariedade e esperança se levantou.

O que fazer agora? Simplesmente instalar UPPs para manter os traficantes longe? Levar alguns serviços sociais, para mostrar a presença do Estado? Tudo isto é bom, mas é pouco, muito pouco, diante da extraordinária oportunidade de provocar uma mudança definitiva de mentalidades.

Precisamos agora que uma voz forte de liderança se faça ouvir, um verdadeiro Churchill capaz de mobilizar corações e mentes para levar a sociedade brasileira a um patamar civilizatório mais elevado. Hora de esta voz anunciar o tempo da mudança definitiva. De tocar o coração não só das pessoas de bem, mas especialmente daqueles que entraram “no desvio”: bandidos e traficantes, usuários de drogas, milicianos (não podemos nos esquecer da ferida que representam), policiais corruptos, juízes e políticos idem.

Hora de dizer, através de todos os meios, que basta de crimes e de ações delituosas de qualquer calibre:

  • dizer aos bandidos e traficantes que o tempo da barbárie acabou e que é tempo de mudarem o rumo de suas vidas; tempo de se reencontrar com a sociedade, reencontrar o fio de humanidade que dentro deles se esconde e se transformarem em cidadãos de bem; tempo de encontrarem prazer e alegria na conquista legítima de seus objetivos, ainda que por caminhos mais demorados; de criarem seus filhos em paz e deixarem que os outros também o façam;
  • dizer aos usuários de drogas que o tempo de cumplicidade – consciente ou inconsciente – com o crime acabou;
    • oferecer para aqueles que são (ou alegam ser) viciados uma oportunidade: cadastrarem-se num órgão da saúde pública para poder comprar legalmente uma porção mínima diária – a ser consumida em local fechado, apropriado – e/ou para submeter-se a um forte Programa de Reabilitação;
    • dizer-lhes que só existe oferta porque existe demanda e que, claramente, têm sido “receptadores” de mercadorias ilegais, sujeitos portanto às penas da lei (nosso paternalismo e complacência com os usuários – nem sempre pobres,  desinformados e vitimas – é, em boa parte, causa do cenário caótico a que chegamos);
  • dizer aos milicianos que o tempo de exploração do medo alheio e da coerção é passado; que é hora de resgatar a dignidade própria e a honra que no passado tiveram de verdadeiramente servir à sociedade;
  • dizer aos policiais corruptos que o tempo de abusar do poder que lhe foi conferido pela sociedade também é passado; que a arma que lhe foi entregue pela sociedade foi para que a protegesse e não para lhe dar o poder de achacar bandidos, seqüestrar cidadãos de bem, ser sócio da criminalidade e colocar-se acima do bem e do mal; que é hora de entender como uma elevada honra o mandato de guardião da sociedade que lhe foi conferido e que este requer dele não soberba, mas humildade; não rancor, mas firme serenidade;
    • junto com isto, anunciar que, de hoje em diante, a sociedade reconhece sua importância estratégica, estabelecendo que, juntamente com a profissão de professor – também estratégica – esta terá um salário nunca inferior ao de um deputado (que, muitas vezes, não merece o que ganha). De onde virá o dinheiro? Da recolha firme de recursos desviados nos inúmeros escândalos de governos vários, até agora vergonhosamente abafados; do cancelamento de mordomias (cartões corporativos, passagens aéreas, assessores mil, etc, etc), da caça aos funcionários fantasmas, das horas extras de fantasmas e de outros, muito “vivos”, do combate sem tréguas à sonegação, de uma mudança na tabela de IR, que faça com que os mais ricos paguem mais, de um imposto sobre herança, que se transforme em verba carimbada para os objetivos aqui propostos e outras medidas que nossa criatividade recomendar);
  • dizer aos políticos corruptos que o tempo de tratar como seu o bem público acabou; que o mandato a ele conferido é para representar os interesses do povo e não o seu próprio; que, mais do que a notoriedade social só conseguida através do roubo de milhões dos programas sociais, da merenda escolar, da educação e da saúde, vale a competência de entrar para a história do país pela porta da frente, com a honra e o reconhecimento pela defesa do bem comum; que drenar os recursos públicos para os cofres particulares é crime hediondo e, como tal, terá pena mínima de 20 anos, em regime fechado, sem direito a progressão de pena (um deboche social);
  • dizer aos juízes presos a conceitos anacrônicos de justiça e a firulas técnicas que é tempo de rever conceitos e se sintonizar com uma realidade que grita por eficiência e agilidade da justiça;
  • dizer aos juízes e advogados corruptos e venais que é esta a oportunidade de livrar-se da desonra e retornar ao caminho original, que nunca deveriam ter abandonado: o de garantir justiça e não impunidade;
  • dizer ao empresário e ao cidadão comum, especialmente aos cotidianamente “espertos”, aos que fazem pequenas e grandes falcatruas – jogar no bicho, fazer “gato” de luz, água e TV a cabo, corromper o guarda de trânsito, comprar DVDs piratas, pagar para passar processos na frente, dar propina, falsear licitações – que estas atitudes é que criam o caldo de cultura para todos os outros grandes abusos, cometidos em todas as esferas; que somente mudando a cultura de “o meu primeiro” é que se poderá ter o direito de clamar contra políticos corruptos, contra bandidos e traficantes, contra “tudo isto que está aí”.

O que pensar destas idéias: devaneios insentatos? Sonho? Loucura? Utopia?

“ O exemplo de Churchill e sua incendiária oratória permitiram-lhe manter a coesão espiritual do povo britânico nas horas de prova suprema que significaram os bombardeios sistemáticos da Alemanha sobre Londres e outras cidades do Reino Unido.”
(Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Winston_Churchill ).

Era Churchill louco, insensato ou apenas conseguia desenhar mentalmente o futuro desejado e, compartilhando esta visão com seus concidadãos, lograr uni-los na construção daquele ideal?

“Nessa época, ele comandava a Inglaterra de um prédio de escritórios simples, que não fora projetado para seu conforto, passando as manhãs deitado na cama, tomando banho em um cômodo separado de seu quarto, de forma tal que às vezes oficiais ingleses encontravam-no andando pelo prédio seminu e molhado.” (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Winston_Churchill ).

O que dizer das fortunas gastas em palácios da justiça, em prédios do Banco Central, em palácios da alvorada e jaburu, em gabinetes suntuosos e séquito de assessores comissionados de que desfrutam as “lideranças” nacionais que, ao invés de ao sucesso, levaram a sociedade brasileira a um estado de miserabilidade social e material de tamanha dimensão (as imagens das favelas cariocas – como todas as demais, onde seres humanos se “entocam” como ratos, dá a dimensão real deste país, que se pretende tendo chegado ao primeiro mundo); sorvendo parasitariamente os recursos que deveriam ser destinados a professores e policiais, à educação e à saúde, à geração de empregos e ao provimento de dignidade de vida aos cidadãos, seqüestram de cada um o direito de viver dignamente e ser feliz, escarnecendo, com seus sinais exteriores de riqueza ilegitimamente obtida, daqueles que suam no dia a dia para entregar-lhes o quinto, que se transforma rapidamente em quarto, terço e já quase metade.

Precisamos de um Churchill imediatamente. Alguém que desperte em cada um e em todos os estratos sociais a esperança e o desejo de construir o mundo que sonhamos, assim como a vontade e o orgulho de sermos verdadeiramente humanos.

A oportunidade é de ouro para fazer história. Quem se habilita? Com a palavra, por exemplo, o Governador Sérgio Cabral, que o destino quis que estivesse na berlinda, neste momento especial. Se compreender a grandeza e potencialidade do momento, dará início a um “tsunami do bem”, que varrerá este país, arrebanhando adesões de outros governadores e lideranças em geral, e reacendendo esperanças por onde passar. A oportunidade é sua, Governador, e, se a deixar passar, será esquecido pela História.

2 Comentários
2 Comentários
  1. Prezado Prof. Lúcio,
    Parabens pelo texto. È uma lição de esperança e entusiasmo com atitudes que poderemos assistir. Moradia digna, educação, saúde e segurança para todos é um direito dos cidadãos e só será alcançado com professores e policiais bem remunerados, juizes (até os das mais altas câmaras) e políticos comprometidos com o povo e o pais que representam.
    Abraços,

  2. Lúcio,
    Certamente seu desabafo poderia ser o de todos nós. Somos os otimistas que ainda acreditamos que pode dar certo basta aproveitarmos as oportunidades que , agora, estão bululando no país. Deus queira que muitos estejam pensando assim para que o sonho não seja sonhado sozinho. Estou com você! Um grande abraço, Dagmar

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